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03/13/2011

Haters

Embora acredite que todos nós, sem exceção alguma, possuímos preconceitos, não há justificativa alguma para expô-los e nem para agirmos com hostilidade a quem  é o objeto ou a causa de nossos preconceitos ou ódios.

Gosto sempre de lembrar aos meus alunos que a internet é no man’s land (embora saiba que há sete pessoas que têm o poder de resetar todo o conteúdo dela,  não creio que um dia eles irão fazê-lo) e que, portanto, todo cuidado é pouco. Nela é possível encontrar páginas, fóruns e todo tipo de sortimento que propague o ódio a qualquer coisa sem o menor pudor ou escrúpulo. Quem há de verificar tais páginas, sites e conteúdos? Há algum responsável por isso?

Reiterando a primeira frase, todos possuímos algum tipo de preconceito, quer seja contra pagode (ou pagodeiros), contra negros, contra quem escreve com erros gramaticais, etc. Diria que, até aqui, talvez isso seja OK; o problema se encontra em depreciar as pessoas que gostam de pagode, quem comete erros gramaticais, etc, de forma mais abertamente e pública. O que há de errado em seu amigo gostar de pagode? Ele será menos seu amigo se gostar disso? Se seu irmão escreve tudo errado, você ainda deixaria de amá-lo? Cortaria relações com ele? Então por que você haveria de não se importar com o fato de seu irmão ouvir esse tipo de música, mas declarar uma guerra de ódio contra todos os outros que o fazem? E por que há tantas pessoas que perdem seu tempo humilhando, apontando os erros de e expondo os outros?

Sou extremamente contra esses Pasquales ou Hitlers ambulantes; acontece que a internet está servindo para que a propagação desse ódio se torne mais intensa, mais aberta, com pessoas se expondo sem medo.  Acredito que pouquíssimos pais controlam o que seus filhos fazem online, o que agrava ainda mais a situação. Obviamente também há muitos adultos que fazem sua parte por aí.

Concentro esse post principalmente na parte da linguagem, ou seja, no preconceito linguístico existente, até pelo caráter do blog. Para ilustrar melhor tamanho “infundamento” em aceitar formas diferenciadas de escrita e fala, eis o autor que, a meu ver, melhor representa esse expoente: Manoel de Barros. Aqui vai um pedaço de sua obra-prima:

 

Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.

Sou um sujeito letrado em dicionários.

Não tenho que 100 palavras.

Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais ou no Viterbo –

A fim de consertar a minha ignorãça,

mas só acrescenta.

Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:

– Ser ou não ser, eis a questão.

Ou na porta dos cemitérios:

– Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.

Ou no verso das folhinhas:

– Conhece-te a ti mesmo.

Ou na boca do povinho:

– Coisa que não acaba no mundo é gente besta

e pau seco.

Etc

Etc

Etc

Maior que o infinito é a encomenda.

– BARROS, Manoel de.  O Livro das Ignorãças, 2009. p. 27.

 

Não, não citarei Marcos Bagno aqui. Este, além de ficar na imagem decorativa do post, fica para quem quiser se aprofundar mais no assunto e é de leitura obrigatória para os estudantes de Letras, embora ache que deveria ser leitura obrigatória a todos os professores, sem exceção.

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